sexta-feira, 31 de julho de 2009

Diário de Bordo - viagem a Madri


Este texto foi escrito em 2000, quando retornei da Europa. Mexendo nos meus arquivos, o encontrei e agora publico para registar aquele momento, que foi tão importante para mim.

Chega um momento em que é preciso colocar a bolsa no ombro e partir. Desfrutar o tão acalentado sonho. Muito mais do que desbravar mundos, viajar sozinha é descobrir-se. Em tempos passados, aventurar-se além-mar era exclusividade dos homens. Hoje, as mulheres podem cruzar fronteiras sem correr riscos. Basta seguir algumas regras básicas. Afinal, história e geografia se conhecem com os próprios pés. Foi assim que desembarquei no aeroporto de Barajas, em Madri, no dia 29 de janeiro de 2000.

Minha paixão por viagens é uma companheira fiel de longa data. Planejo meus roteiros com um ano de antecedência. Loucura, não - sabedoria. Cada etapa tem um sabor peculiar - o antes, o durante e o depois. Consultar guias de viagens, aprender com as experiências de amigos, assistir vídeos, percorrer atlas e pesquisar revistas de turismo podem ser tão exitantes quanto a viagem em si. Estes cuidados possibilitam, por exemplo, ver aquela feira de pássaros e flores que só acontece na manhã de um determinado dia da semana em Paris ou apreciar gratuitamente as obras de arte do Museu do Prado num domingo de manhã. Investir com antecedência é estar no lugar certo e na hora exata. A observação destes pequenos detalhes assegura economias de tempo e de dinheiro. E no retorno é só ter o prazer de contar para os amigos as intermináveis estórias e, sobretudo mostrar as 1672 fotos clicadas na última viagem.

Meu irmão, minha cunhada e minha sobrinha foram se despedir de mim no aeroporto Salgado Filho. Eu estava sentindo um friozinho na barriga. Aquelas coisas de marinheiro de primeira viagem. Já havia percorrido outros países em companhia de amigos ou em excursões. Esta, porém, era a primeiva vez que havia decidido viajar sozinha. Disse a eles que poderia desistir e voltar de São Paulo, onde faria a conexão para Madri. Embarquei às19h15min no vôo 720 da Varig rumo ao aeroporto de Guarulhos. De lá segui para a Espanha às 22h55min, num DC10 da mesma companhia.

No percurso doméstico sentei-me ao lado de uma professora de Esteio. Janete estava indo para Huelga - sul da Espanha - visitar o namorado espanhol que conhecera nas férias do ano anterior. Fizemos companhia uma para outra no aeroporto de São Paulo. Ela procurava lembracinhas para presentear os amigos castelhanos. Antes de ingressar na ala internacional, degustamos um cafezinho levando no paladar um gosto bem brasileiro. Janete registrou o momento em sua máquina fotográfica. A viagem estava apenas começando. Decididamente, desistir não é uma palavra de destaque no meu vocabulário de intenções, pelo menos não foi naquela situação.

Mulher viajando sozinha está sujeita a contratempos. Este senso comum não me intimidou. Mesmo assim, tive alguns temores. Entre eles, o de ser roubada, entrar num trem errado, perder uma conexão, ou o que é pior sentar-me na aeronave ao lado de um mula colombiano. Me acomodei numa poltrona ao lado do corredor. Não demorou muito tive de dar passagem ao meu companheiro de banco - era um boliviano. Na minha fantasia imaginei que a bagagem dele estava transbordando de cocaína. Fui ao toalete conferir se o meu passaporte e meus dólares estavam bem protegidos na doleira que carregava por baixo da roupa.

Juan Antonio Terán Barrenechea é Ministro da Educação, Cultura e Desportes em La Paz. Todo ano viaja à europa. Seus planos eram o de alugar um carro no aeroporto de Barajas e seguir no mesmo dia para Pamplona, início do roteiro que incluia Suiça e Itália. Juan também pratica automobilismo em seu país e é um apreciador de artes plásticas contemporâneas. Nos depespedimos ao lado da esteira rolante, enquanto ele esperava por suas malas. A minha sacola coloquei no maleiro do avião. Não me agrada a idéia de chegar sem bagagem num país estranho. Passamos sem problemas pela imigração. Ele por portar um passaporte diplomático e eu por adicionar à documentação, minha carteira internacional de Jornalista.

Feito o câmbio de US$ 100 - as taxas do aeroporto nunca são as mais atraentes -, procurei um balcão de informações. De posse de um mapa de Madri e de um plano do transporte urbano me dirigi ao terminal do metrô. O termômetro registrava oito graus centígrados. Um frio seco contrastava com um céu de brigadeiro. Subi, desci, virei à direita e à esquerda sempre seguindo as indicações das setas para desembocar na estação. A mania de checar informações me fez perguntar a uma moça se eu estava na direção correta.

Lídia é da República Dominicana. Ela vive no interior da Espanha e estava em Madri para visitar o marido. Ele rodava um filme. Grávida de dois meses, Lídia me ensinou a obliterar o tícket do metrô e sacá-lo após ser carimbado pela máquina com data e hora. Em todas as cidades européias é indispensável carregar durante todo o percurso o bilhete registrado. Caso contrário, se está sujeito a pagar uma substancial multa aos fiscais que comparecem nos comboios inadivertidamente.

Meu destino era a Estação Argüelles, perto da Praça de Espanha. Para tanto, precisa de apenas uma conexão nos 50 minutos do trajeto. Por estas casualidades da vida, trocamos de metrô na mesma parada. Isto além de facilitar minha chegada, propiciou que me sentisse mais à vontade na cidade. Lídia seguiu seu rumo. Antes, porém, me recomendou que não deixasse à vista o mapa da cidade, para evitar ser identificada como estrangeira por espertinhos. Ela se referia em particular aos ágeis marroquinos, especialistas em roubos rápidos. Desembarquei no destino certo e fui ao guichê indagar sobre a localização da Calle Santa Cruz de Macenado, local do albergue que deveria me hospedar.

Obtive a informação somente na banca de revistas da equina, no outro lado da rua. Estava a uns 150 metros. Toquei a campainha e venci os degraus. Para minha surpresa, o alojamento estava cheio. Era sábado e eu não havia efetuado a reserva. Diante do meu embasbacamento, o recepcionista me indicou a Pensión Gonzales, na Calle San Domingos, distante apenas três quadras. Lá a media é outra, a cinco ou dez minutos à pé. Na porta, fiquei indecisa se entrava ou não. Era um prédio muito velho. A porta de entrada com a pintura descascada e uma escadaria pouco iluminada. Abordei um casal de transeuntes para saber se a hospedaria era adequada ou não. Normal, foi a resposta.

Entre as ameaças de entrar ou retornar - já eram umas 15h30min - subi até o terceiro andar, embora parecesse o vigésimo. Os prédios são muito antigos na europa. O pé direito alto e conseqüentemente as escadarias intermináveis. Me recebeu um rapaz de uns 26 anos. Ele e sua mulher alugam quartos. A limpeza é por conta dela e a negociação ao encargo dele. O que me foi oferecido tinha duas camas, pia, banheira com chuveiro e janela para à rua. “Los servicios” ficavam no corredor. Os lençóis branquinhos e o aquecedor regulado a uma temperatura agradável. Pagando pelas duas camas, teria exclusividade. Caso preferisse poderia compartilhar a acomodação com outra menina, que por ventura ali chegasse. Escolhi a segunda opção. Paguei adiantado diárias pelos quatro pernoites e fui trocar os dólares por pecetas na Praça de Espanha, um dos melhores câmbios de Madri. Liguei para os meus pais. Estava pronta e livre para começar meu passeio.

No retorno conheci Brigith, minha companheira de habitación. Novaiorquina de uns 28 anos, ela também estava viajando por conta própria. Seu roteiro estava previsto para um ano. O meu para 31 dias. E por incrível que pareça, a americana entendia o meu inglês. Nos fins de tarde descrevíamos como tinha sido o dia, mostravamos uma para outra as pequenas comprinhas e nos interavamos sobre as novidades.

Um comentário:

eleonora disse...

viu, e eu duvidava do ingles...eu é que não sei! adorei o texto, aguardo a continuação..